A trajetória

Comecei no rádio em 1974. No caminho da escola, eu e meus três irmãos ouvíamos Vicente Leporace e seu Trabuco, no grande Aero Willys azul piscina do meu pai. A altura do rádio era para acordar qualquer um.

Certa vez, uma caxumba muito forte me obrigou a perder mais de 10 dias de aula. Naquela época, o ensino público ainda era muito bom e, mesmo na pré-escola, o prezinho, havia lição de casa todo o dia. Refiz todas as tarefas atrasadas ouvindo rádio, junto com minha mãe. Humberto Marçal, Antônio Carvalho e Nei Costa enchiam a edícula da casa, nosso escritório, de onde minha mãe, além de ajudar meu pai, um contador dos tempos da calculadora à alavanca, ainda vendia, por telefone, as assinaturas da extinta Editora Bannas, escrevendo a pré-história do telemarketing.

Em 1975 o São Paulo foi campeão paulista. Junto com o título do meu time, o primeiro de tantos, descobri o prazer de acompanhar futebol pelo rádio. E comecei a sonhar em estar ao lado de Fiori Gigliotti, Ênio Rodrigues, Flávio Araújo, Mauro Pinheiro, Roberto Silva e tantas outras vozes que ainda ouço.

Ouvi e pensei em rádio o dia inteiro, todos os dias da minha infância e pré-adolescência. Freqüentava os estúdios da Rádio Globo e fui testemunha presente do fenômeno Balancê, criação do insuperável Osmar Santos. Na hora do almoço, íamos tanto ao Teatro e Palhaçaria Pimpão, eu e meu amigo Flávio, que já cumprimentávamos o Fausto Silva, o Johnny Black, a Lucimara Parisi, o Tatá e o Escova até com certa intimidade. “Vocês não estão matando aula, né?”, chegou a nos perguntar Lucimara. Nunca! Estudávamos de manhã e éramos tão responsáveis...

Entrei no rádio para valer em maio de 1988. Abri mão das três fontes de renda que eu tinha à época (era professor de Português em vários lugares). Larguei tudo para virar rádio-escuta do departamento de pesquisas da Transamérica. Foram quatro meses de muito aprendizado e bem pouco dinheiro. Então saí, confiando que outras chances haveriam de aparecer.

Alguns meses depois, conheci o DataFolha e comecei a fazer pesquisas eleitorais. Não tinha noção, mas ao caminhar quilômetros na rua, sob sol escaldante, chuvas torrenciais e ventos gelados, sem jamais largar a prancheta, minha vida profissional começava a ganhar sentido.

No final do mesmo mágico ano de 1988, entrei na Rádio Bandeirantes AM. Fiquei pouco tempo, pois havia sido um ano cansativo e achei que merecia um descanso.

Perdi muitas aulas dos últimos semestres da FAAP por ter de viajar. Estávamos em 1989 e teríamos a primeira eleição para presidente da República em mais de vinte anos. O privilégio de ter participado daquele momento histórico, fazendo pesquisas eleitorais em várias cidades brasileiras, é um tesouro precioso, cujo brilho intenso ainda reflete nos trabalhos todos que tenho desenvolvido.

Em 1992, dois anos depois de formado, voltei à Rádio Transamérica, agora na condição de assistente de pesquisa. Fechara-se o ciclo: o amor profundo e antigo pelo rádio, a paixão tórrida pelas pesquisas e a necessidade de começar a viver do meu próprio trabalho.

Do dia 10 de novembro de 1992 até este exato momento em que você navega pelo meu site, nada tenho feito senão pensar no Rádio. De estagiário a funcionário, de funcionário a autônomo, de autônomo a empresário. Hoje, com base em dezenas de milhares de resultados acumulados ao longo do tempo, desenvolvi análises independentes que têm orientado a um sem-número de profissionais de emissoras de todos os segmentos de mercado. São pesquisas ad hoc, cursos e treinamentos, palestras e apresentações.

Fiz muitas amizades. Conheço gente de todas as emissoras. Além do conhecimento técnico, bons relacionamentos, cultivados com lealdade e parceria, são a outra metade do capital de giro da minha empresa.

O profissional que hoje se dispõe a ajudá-lo é o mesmo menino que ficava o dia inteiro, todo o tempo, com o radinho enfiado na orelha, acrescido de muito estudo, histórias e informação.

O menino cresceu, ensinando ao homem feito que sonhos podem virar realidade, quando se acredita neles. E que pode viver de paixão, quem ama de coração tudo aquilo que faz.

Gilberto Gonçalves de Souza (Giba)
comunicólogo social e advogado

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